28.6.17

Joan Brossa (O último homem)





Apesar das aparências e das teorias, diz
que tem medo da solidão; sente-se distanciado
dos objectos; tem medo de não ser mais do que uma
coisa entre as coisas, entre objectos sem nome:
tem consciência de não estar aqui.


(Trad. A.M.)

- Sobre versão Carlos Vitale

.

27.6.17

Luís Quintais (Ética)





ÉTICA



Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.


Luís Quintais


.


26.6.17

Jesús López Pacheco (Agradeço às árvores)





Agradezco a los árboles sus sombras,
 la protección delgada de sus troncos.
 Al banco la amistad de su respaldo
 y a los faroles su bombilla rota.

 Agradezco a las calles sus esquinas,
 sus rincones oscuros como nidos,
 sus portales sin nadie, resguardados
 de la lluvia y el viento y las miradas.

 Agradezco a los cines sus butacas,
 su oscuridad amiga de los labios,
 y a la tarde su luz porque se marcha
 para que venga el beso y el abrazo.

 Ciudad donde yo amé: ya tiempo y tiempo
 ha pasado de aquel beso primero.
 Hoy te agradezco todos tus paseos,
 tus calles y tus plazas, tus tranvías,

 tus barrios pobres, cómplices de amor,
 toda tu oscuridad amada y triste,
 donde ha nacido, sin embargo, el beso
 largo y continuo en el que vivo ahora.


Jesús López Pacheco




Agradeço à árvore sua sombra,
a protecção delgada do tronco.
Ao banco a amizade do apoio
e ao candeeiro a lâmpada partida.

Agradeço à rua sua esquina,
seus cantos escuros como ninhos,
seus portais sem ninguém, protegidos
da chuva, do vento e dos olhares.

Agradeço ao cinema seus lugares,
a escuridão amiga dos lábios,
e à tarde sua luz porque se vai
para que venha o beijo e o abraço.

Cidade onde em tempo amei, e o tempo
passou desse beijo primeiro.
Grato te estou por tuas avenidas,
teus eléctricos, ruas e praças,

teus bairros pobres, cúmplices de amor,
tua escuridão amada e triste.
onde contudo nasceu o beijo
em que vivo agora, longo e contínuo.


(Trad. A.M.)

.

25.6.17

José Watanabe (Fábula)





FÁBULA



En el cauce del río seco
una espigada yegua orina sobre un sapo agradecido.
Yo, que voy de paso, sonrío y recuerdo
                    una antigua ley de compensaciones
de la magia: más feo el sapo
más bello y deslumbrante el príncipe.

Ay, pero la abundante orina de la yegua no es amor
y, aunque amorosamente regada,
                  no rompe los hechizos más perversos:
es sólo un poco de agua ácida en esta sequedad solar.

La yegua se aleja trotando aliviada, moviendo
las ancas
como una muchacha. Yo voy por los espinos resecos
recordando al sapo:
                       el pobre no tenía encantamiento
y se quedó solo
y soportando su fealdad inmutable
                                               y ahora meada.

 
José Watanabe




No leito do rio seco
uma égua urina sobre um sapo agradecido.
E eu, que vou a passar, sorrio e recordo
uma lei antiga de compensações 
da magia, quanto mais feio o sapo
mais belo e deslumbrante o príncipe.

Ah, mas a abundante urina da égua não é amor
e, mesmo amorosamente regada,
não quebra os feitiços mais perversos,
é apenas um pouco de água ácida nesta sequia solar.

A égua afasta-se choutando aliviada, a mexer
as ancas
como uma moça. E eu vou pelos ressecos espinhos
a lembrar-me do sapo:
o coitado não tinha encanto
e ficou sozinho,
a sofrer sua fealdade imutável,
mas agora mijada.


(Trad. A.M.)


.

24.6.17

António Osório (Ainda me acolho)





AINDA ME ACOLHO



Ainda me acolho, Pai,
à tua madressilva.
Ali tens a passiflora,
não envelheceu.
O cedro grande, maior ainda.
O forno, dedadas
expungidas pelas portas.
A buganvília, não esqueço,
é preciso cortá-la.
A Mãe não está nem volta.



António Osório

.

23.6.17

Jesús Lizano (As ratas)





LAS RATAS



Las ratas
insidiosas, peludas,
voraces, ingratas,
innumerables, puntiagudas,
alucinantes, piratas,
escurridizas, zancudas,
por los rincones, por las escalinatas,
cataratas de ratas,
expectantes y mudas,
selva de dientes, de patas,
enormes, menudas,
mortificantes, peliagudas,
a saltos, a gatas,
agobiantes, cornudas,
lúgubres, insensatas...
Las ratas:
¡las dudas!

Jesús Lizano




As ratas,
insidiosas, peludas,
vorazes, ingratas,
inumeráveis, pontiagudas,
alucinantes, piratas,
escorredias, pernudas,
pelos cantos e escadarias,
cataratas de ratas,
expectantes e mudas,
selva de dentes, de patas,
enormes, miúdas,
chatas, bicudas,
aos saltos, de gatas,
angustiantes, cornudas,
lúgubres, insensatas...
As ratas:
as dúvidas!


(Trad. A.M.)

.

22.6.17

Jenaro Talens (Anjos sobre Roma)





ÁNGELES SOBRE ROMA



(II)

Recorrerte sin pausa, como quien
se despereza al sol; ser el sendero
donde inscribir tus huellas. Heme aquí,
acurrucado junto al estallido
que amaga el roce de tu piel.
Cobijo mi pasión a la intemperie
bajo el árbol frondoso de tus sensaciones,
esa implosión de un cuerpo
en el que busco anclarme. Vieja luz
que alumbra, sin embargo, todavía.


(IV)

Daré tu nombre a cuanto vea,
me aferraré a la imagen de tu cuerpo
como la yedra al sol de mediodía.
Igual que el mirlo al recorrer las hojas
busca en la nervadura
los gusanos, iré
a trabajar los surcos,
a sembrar la memoria
si es cierto que para morir,
como dijo el anciano,
basta sólo un ruidillo:
el de otro corazón
(¿mío, tuyo?) al callarse.
   (...)


Jenaro Talens




(II)

Percorrer-te sem descanso, como quem
se espreguiça ao sol; ser o carreiro
onde assinalar o teu rasto. Eis-me aqui,
agachado junto ao estampido
que ameaça o toque da tua pele.
Minha paixão abrigo-a da tormenta
sob a árvore frondosa de teus sentidos,
essa implosão de um corpo
a que tento segurar-me. Velha luz
que ainda ilumina, apesar de tudo.


(IV)

Darei teu nome a tudo quanto vir
e hei-de agarrar-me à imagem do teu corpo
como a hera ao sol do meio-dia.
Tal como o melro correndo as folhas
procura os bichos na nervura,
irei abrindo os sulcos,
a semear a memória,
se certo é que para morrer,
como disse o outro,
basta só um barulhinho,
o de outro coração
(meu? teu?) ao parar.
   (...)

(Trad. A.M.)

.