24.2.18

Cecília Meireles (De que são feitos os dias)





De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças.

Cecília Meireles

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23.2.18

César Cantoni (Apesar dos bons costumes)





 A DESPECHO DE LAS BUENAS COSTUMBRES



A despecho de las buenas costumbres,
“mierda” es una de nuestras voces más usadas.
Los espectadores salen furiosos del cine
porque la película resultó una “mierda”.
La esposa manda a la “mierda” al marido
y se marcha con su amante.
Y hasta los poetas, puestos a opinar,
tachan de “mierda” la poesía de sus pares.
Se dirá que los tiempos que corren carecen de lirismo.
Es cierto, ¿pero cómo hablar o escribir con palabras
que no coincidan con la realidad?


César Cantoni






Apesar dos bons costumes,
‘merda’ é uma das palavras mais usadas.
Os espectadores saem furiosos do cinema
porque o filme era uma ‘merda’.
A mulher manda à ‘merda’ o marido
e foge com o amante.
E até os poetas, metidos a opinar,
tacham de ‘merda’ a poesia de seus pares.
Dir-se-ia que os tempos que correm falta-lhes lirismo.
É verdade, mas como falar ou escrever com palavras
que não coincidam com a realidade?


(Trad. A.M.)

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22.2.18

Carlos de Oliveira (Uma Abelha na Chuva)






(Início)


Pelas cinco horas duma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois da árdua jornada que o trouxera da aldeia do Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passso molengão; samarra com gola de raposa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas de meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais; preocupava-o a terriça, batia os pés com impaciência no empedrado. 

Tinha o seu quê de invulgar: o peso do tronco roliço arqueava-lhe as pernas, fazia-o bambolear como os patos: dava a impressão de aluir a cada passo.

A respiração alterosa dificultava-lhe a marcha.

Mesmo assim galgara duas léguas de barrancos, lama, invernia.

Grave assunto o trouxera decerto, penando nos atalhos gandareses, por aquele tempo desabrido. 


CARLOS DE OLIVEIRA
Uma Abelha na Chuva
(1953)
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21.2.18

Ángel González (Há que ser muito valente)





Hay que ser muy valiente para vivir con miedo.
Contra lo que se cree comúnmente,
no es siempre el miedo asunto de cobardes.
Para vivir muerto de miedo,
hace falta, en efecto, muchísimo valor.

Ángel González





Há que ser muito valente para viver com medo.
Ao contrário do que se pensa,
o medo nem sempre é coisa de cobardes.
Para se viver morto de medo,
é preciso, de facto, ter muita coragem.


(Trad. A.M.)

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20.2.18

Ana Margarida de Carvalho (Que Importa a Fúria do Mar)






(Início)


Tersa gente esta, de almas baldias, vontades torcidas pelo frio que aperta, amolecidas pelo sol que expande.

Ando aqui a ganhar a morte.

Nestes campos de giesta, engatadas raízes no chão, tão presas de seiva e vontade que não as pode a força de um homem arrancar.

Ervas daninhas mais difíceis de vergar do que um pinheiro  bravo à machadada.

O pinheiro deixa o coto apodrecido, vã ruína orgânica, mas as raízes das giestas mantêm-se sorrateiras, infiltrantes, debaixo da terra, a aguardar melhor ocasião para levantar haste.

E, mal um homem vira costas, lá estão elas, sob os pés, soturnas, insinuantes, sôfregas de todas as pingas de água, a saciarem-se, a exaurirem as lavouras, sem sequer a gentileza de uma sombra, só pasto de insectos, refúgio de furões, conspiração do matagal.

Assim ando eu.

Entre mato rasteiro e bravio.

Que a vida sempre me foi um ferro de engomar.

Quando há um prego que se destaca, martela-se.

E no entanto, mesmo amolgado e enterrado, continua lá.

De quem é o carvalhal?




ANA MARGARIDA DE CARVALHO
Que importa a fúria do mar
(2013)


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19.2.18

Ana Pérez Cañamares (Las poetas)





LAS POETAS



Nosotras no somos malditas
somos desgraciadas
depresivas, putas
suicidas, locas
reprimidas
alcohólicas
ignoradas

Nosotras no somos malditas
- que tiene un matiz heroico, romántico
que rima con rebelde y con elegido

Nosotras no somos malditas
tampoco podremos ser benditas

Nosotras somos la excepción
de la excepción
y todos los adjetivos
se quedan cortos
o pasan de largo


Ana Pérez Cañamares

[Las maneras de recogerse el pelo]




Nós não somos malditas
somos desgraçadas,
depressivas, putas
suicidas, loucas
reprimidas
alcoólicas
ignoradas

Nós não somos malditas
- que tem um matiz heróico, romântico
a rimar com rebelde e com escolhido

Nós não somos malditas
mas tão pouco seremos benditas

Nós somos a excepção
da excepção
e todos os adjectivos
ficam curtos
ou passam de largo


(Trad. A.M.)

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18.2.18

Manuel António Pina (A moral da história)





A MORAL DA HISTÓRIA, SEGUNDO O SENHOR DA CAMA 2B 




A esperança é a última coisa a morrer,
disse ele antes de ter
dado o tiro na boca.
Tivesse ficado calado
e estaria ainda vivo, aqui ou noutro lado.
— OK: não posso dizer
que estivesse melhor
(em relação à sua actual, como hei-de dizer?, situação),
mas também ninguém 
me pode dizer a mim que não.


Manuel António Pina


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