23.5.17

Gloria Bosch (Com a alma pela gorja)





CON EL ALMA AL CUELLO



Con el alma al cuello anduve mucho tiempo
en la cuerda floja
buscando el equilibrio de un trapecista
descifrando en el mapa de otros cuerpos
las huellas borrosas de mi propia historia.
Con el alma al vuelo
busqué la compañía de los espejos
el agua tibia que me saciara
de una sed antigua de querencias y deseos.
Superviviente de algún naufragio
no opté por la fuga ni el suicidio
dejé pasar las hojas del calendario
sanando heridas, corazón en mano.
Me mueve la fe de que estoy viva
llego a fin de mes sin red y con tropiezos
los tigres me saludan y me he hecho amiga
de las magas y los titiriteros.
Aunque la vida me ha dado algún zarpazo
esquivo el látigo de los malos momentos
y doy volteretas sobre la lona
si las palabras acuden a mi encuentro.
Mi vicio es escribir a ras de suelo.


Gloria Bosch





Com a alma pela gorja andei muito tempo
na corda bamba
tentando o equilíbrio do trapezista
decifrando no mapa de outros corpos
o rasto da minha própria história.
Com a alma a voar
busquei a companhia dos espelhos
a água fresca para saciar
uma sede antiga de paixão e desejos.
Sobrevivente de naufrágio
não escolhi a fuga nem a morte,
deixei virar as folhas do calendário,
sarar as feridas, de coração nas mãos.
Move-me a fé de estar viva,
chego sem rede ao fim do mês, aos tropeções,
os tigres saudam-me, fiz-me amiga
das magas e dos saltimbancos.
Certo que a vida me fez algumas feridas,
mas fujo ao látego dos maus momentos
e dou cambalhotas na lona
se as palavras vêm ao meu encontro.
Meu vício é escrever ao rés do solo.


(Trad. A.M.)

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22.5.17

Machado de Assis (Casada)





A alegria com que pôs o seu chapéu de casada, e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro, e o braço para andar na rua, tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado.
Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores; precisava do resto do mundo também.
E quando eu me vi embaixo, pisando as ruas com ela, parando, olhando, falando, senti a mesma coisa.
Inventava passeios para que me vissem, me confirmassem e me invejassem.
Na rua, muitos voltavam a cabeça curiosos, outros paravam, alguns perguntavam: "Quem são?" e um sabido explicava: "Este é o Doutor Santiago, que casou há dias com aquela moça, D. Capitolina, depois de uma longa paixão de crianças; moram na Glória, as famílias residem em Mata-cavalos." E ambos os dois: "É uma mocetona!"


MACHADO DE ASSIS
Dom Casmurro
(1900)

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21.5.17

Gisela Galimi (Estação)








El invierno termina algún día incierto.
Ni antes ni después
que finalice el frío.
No importa como lo llames,
ni la fecha que dicte el almanaque.
El invierno es invierno.
Las muchachas podrán ignorarlo
y vestir primavera en septiembre,
enamoradas de las quimeras.
Pero una mujer ya tiene su experiencia.
Todo llega a su debido tiempo.


Gisela Galimi




Termina o Inverno em dia incerto,
nem antes nem depois
de se acabar o frio.
Não importa o nome
nem a data indicada pelo almanaque.
O Inverno é o Inverno.
Poderão ignorá-lo as moças
e vestir de Primavera em Setembro,
enamoradas de quimeras.
Mas uma mulher tem já a sua experiência,
tudo vem com o tempo.


(Trad. A.M.)

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20.5.17

Gioconda Belli (Pirilampos)





LUCIÉRNAGAS



A las cinco de la tarde
cuando el resplandor se queda sin brillo
y el jardín se sumerge en el último hervor dorado del día
oigo el grupo bullicioso de niños
que salen a cazar luciérnagas.

Corriendo sobre el pasto
se dispersan entre los arbustos,
gritan su excitación, palpan su deslumbre
se arma un círculo alrededor de la pequeña
que muestra la encendida cuenca de sus manos
titilando.

Antiguo oficio humano
este de querer atrapar la luz.

¿Te acuerdas de la última vez que creímos poder iluminar la noche?

El tiempo nos ha vaciado de fulgor.
Pero la oscuridad
sigue poblada de luciérnagas.


Gioconda Belli

[Apología de la luz]




Ao fim da tarde
quando a luz amortece
e o jardim mergulha nas últimas ondas
de oiro do dia
chega-me o bulício das crianças
à caça de pirilampos.

Correndo na relva
espalham-se nos arbustos,
gritam de excitação, deslumbrados,
e fazem roda em torno da pequena
a mostrar a concha acesa
das mãos cintilando.

Humano ofício antigo
este de querer agarrar a luz.

Lembras-te da última vez em que julgámos
poder iluminar a noite?

O tempo tirou-nos o fulgor.
Mas a escuridão
continua cheia de pirilampos.

(Trad. A.M.)

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Pirilampos:
Fernando Assis Pacheco - Apanhador de pirilampos
A.M.Pires Cabral - Pirilampos-I

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19.5.17

Corpo presente (48)






ESTÁ BEM





Queres o meu corpo?
                Toma o meu espírito

.

18.5.17

Gina Saraceni (Devolveu ao mar)





Le devolvió
las piedras al mar,

las piedras guardadas por años
en frascos de mermelada.

Fue el vacío
lo que queda
en su lugar.

Igual que un abandono:
dura todavía.


Gina Saraceni





Devolveu
ao mar as pedras,

guardadas anos e anos
em frascos de marmelada.

No lugar delas
foi o vazio
o que ficou.

Tal como um abandono,
ainda dura.


(Trad. A.M.)

  .

17.5.17

Gabriel Celaya (A poesia é uma arma)





LA POESÍA ES UN ARMA CARGADA DE FUTURO



Cuando ya nada se espera personalmente exaltante,
mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
fieramente existiendo, ciegamente afirmando,
como un pulso que golpea las tinieblas,

cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte,
se dicen las verdades:
las bárbaras, terribles, amorosas crueldades.

Se dicen los poemas
que ensanchan los pulmones de cuantos, asfixiados,
piden ser, piden ritmo,
piden ley para aquello que sienten excesivo.

Con la velocidad del instinto,
con el rayo del prodigio,
como mágica evidencia, lo real se nos convierte
en lo idéntico a sí mismo.

Poesía para el pobre, poesía necesaria
como el pan de cada día,
como el aire que exigimos trece veces por minuto,
para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica.

Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
Estamos tocando el fondo.

Maldigo la poesía concebida como un lujo
cultural por los neutrales
que, lavándose las manos, se desentienden y evaden.
Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.

Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren
y canto respirando.
Canto, y canto, y cantando más allá de mis penas
personales, me ensancho.

Quisiera daros vida, provocar nuevos actos,
y calculo por eso con técnica qué puedo.
Me siento un ingeniero del verso y un obrero
que trabaja con otros a España en sus aceros.

Tal es mi poesía: poesía-herramienta
a la vez que latido de lo unánime y ciego.
Tal es, arma cargada de futuro expansivo
con que te apunto al pecho.

No es una poesía gota a gota pensada.
No es un bello producto. No es un fruto perfecto.
Es algo como el aire que todos respiramos
y es el canto que espacia cuanto dentro llevamos.

Son palabras que todos repetimos sintiendo
como nuestras, y vuelan. Son más que lo mentado.
Son lo más necesario: lo que no tiene nombre.
Son gritos en el cielo; y en la tierra, son actos.


Gabriel Celaya





Quando já nada se espera de pessoalmente exaltante,
mas se palpita e se continua para cá da consciência,
ferozmente existindo, cegamente afirmando,
como um pulso que lateja nas trevas,

quando se olham de frente
os claros olhos vertiginosos da morte,
dizem-se as verdades:
as bárbaras, terríveis, amorosas crueldades.

Dizem-se os poemas
que dilatam os pulmões de quantos, asfixiados,
pedem ser, pedem ritmo,
pedem lei para o que sentem excessivo.

Com a velocidade do instinto,
com o raio do prodígio,
como mágica evidência, converte-se o real
no idêntico a si mesmo.

poesia para o pobre, poesia necessária
como o pão de cada dia,
como o ar que exigimos treze vezes por minuto,
para ser e enquanto somos dizer um sim que glorifica.

Porque vivemos de vez em quando, porque mal nos deixam
dizer que somos quem somos,
nossos cantos não podem sem pecado ser um ornamento.
Estamos a tocar o fundo.

Maldigo a poesia concebida como um luxo
cultural pelos neutrais
que lavando as mãos, se desinteressam e evadem.
Maldigo a poesia de quem não toma partido até manchar-se.

Faço minhas as faltas. Sinto em mim quantos sofrem
e canto ao respirar.
Canto, canto, e a cantar para além de minhas mágoas
pessoais, fico maior.

Quisera dar-vos vida, provocar novos actos,
e calculo por isso com técnica,que venço.
Sinto-me um engenheiro do verso e um operário
que com outros trabalha Espanha nos seus aços.

Assim é a minha poesia: poesia-ferramenta
e ao mesmo tempo pulsação do unânime e cego.
Assim é, arma carregada de futuro expansivo
com que aponto ao peito.

Não é uma poesia gota a gota pensada.
Nem um belo produto. Nem um fruto perfeito.
É algo como o ar que todos respiramos
e é o canto que difunde o que dentro levamos.

São palavras que todos repetimos sentindo
como nossas, e voam. São mais que o que elas dizem.

São o mais necessário: o que possui um nome.
São gritos no céu, e, na terra, são actos.


(Trad. José Bento)

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Paco Ibañez (YouTube)
(Aditado ‘gritos’ no último verso, conforme o original). A.M.

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