25.9.17

Mário de Carvalho (Um saco de plástico)





Arrebatado, um saco de plástico saltou nos céus, a boa altura, muito acima das copas dos pinhais. 

Oscilou, valsou, pairou, lento, como se fosse para ir ficando, suspenso de nada. 

E espreguiçava-se, e encolhia-se e expandia-se, revirava-se, gozava a vista e o Sol. 

Agora drapejava – era bandeira, agora planava – era milhano, agora enfunava-se – era balão. 


Estava nisto e estava a convencer-se de que as letras verdes e o símbolo amarelo – Pingo Doce – pertenciam por direito próprio àquelas zonas alcandoradas, de aragens mais quentes. 

Veio uma guinada, deitou-lhe a garra, amarfanhou-o e rebaixou-o uns metros. 

Outra o resgatava, amparava e desdobrava, impante e triunfal, com sonoridades secas. 

À traição, atirou com ele para longe, uma, outra e outra vez, apesar de resistir com os bufos sacudidos de um polvo. 

Vai abaixo! Vai acima!



MÁRIO DE CARVALHO
A Sala Magenta-XII
(2008)

.

24.9.17

Miguel Barnet (Eu espero-te)





Yo te espero
bajo los signos rotos
del cine cantonés.
Yo te espero
en el humo amarillo
de una estirpe deshecha.
Yo te espero
en la zanja donde navegan
ideogramas negros
que ya no dicen nada.
Yo te espero a las puertas
de un restaurante
en un set de la Paramount
para una película que se filma a diario.
Dejo que la lluvia me cubra
con sus raíles de punta
mientras presiento tu llegada.
 En compañía de un coro de eunucos,
junto al violín de una sola cuerda
de Li Tai Po,
yo te espero.
Pero no vengas
porque lo que yo quiero realmente
es esperarte.

Miguel Barnet




Eu espero-te
sob os letreiros rasgados
do cinema cantonense.
Espero-te
no fumo amarelo
de uma estirpe desfeita.
Espero-te
numa vala onde navegam
ideogramas negros
que já não dizem nada.
Espero-te à porta
de um restaurante
num set da Paramount
para um filme que se roda diariamente.
Deixo a chuva cobrir-me
com seus carris de ponta
enquanto pressinto a tua chegada.
Na companhia de um coro de eunucos,
ao pé do violino de uma corda só
de Li Tai Po,
eu espero-te.
Mas não venhas, deixa,
que o que eu quero mesmo
é esperar-te.


(Trad. A.M.)

.

23.9.17

Meira Delmar (O milagre)





EL MILAGRO



Pienso en ti.

La tarde,
no es una tarde más;
es el recuerdo
de aquella otra, azul,
en que se hizo
el amor en nosotros
como un día
la luz en las tinieblas.

Y fue entonces más clara
la estrella, el perfume
del jazmín más cercano,
menos
punzantes las espinas.

Ahora,
al evocarla creo
haber sido testigo
de un milagro.


Meira Delmar




Penso em ti.

A tarde não é
só mais uma tarde;
é a lembrança
de outra tarde, azul,
em que o amor
se fez em nós
como a luz, um dia,
se fez nas trevas.

E foi então mais clara
a estrela, o perfume
do jasmim mais próximo,
menos
picantes os espinhos.

Agora,
ao evocá-la, creio
que fui testemunha
de um milagre.

(Trad. A.M.)

.

22.9.17

Ana Salomé (Ode ao castigo)





ODE AO CASTIGO



Só mais uma menina entre outras
E o quadro negro onde escrever o teu nome a giz
Como um erro ortográfico do coração.

Castigo.
Entre nós o alto muro do recreio
E a obrigação de permanecer só.


Ana Salomé



.

21.9.17

Mario Benedetti (Angelus)





ANGELUS



Quién me iba a decir que el destino era esto.

Ver la lluvia a través de letras invertidas,
un paredón con manchas que parecen pronombres,
el techo de los ómnibus brillantes como peces
y esa melancolía que impregna las bocinas.

Aquí no hay cielo,
aquí no hay horizonte.

Hay una mesa grande para todos los brazos
y una silla que gira cuando quiero escaparme.
Otro día se acaba y el destino era eso.

Es raro que uno tenga tiempo de verse triste:
siempre suena una orden, un teléfono, un timbre,
y, claro, está prohibido llorar sobre los libros
porque no queda bien que la tinta se corra.


Mario Benedetti





Quem me diria que o destino era isto.

Ver a chuva através de letras invertidas,
um paredão com manchas que parecem pronomes,
o tecto dos ónibus brilhantes como peixes
e essa melancolia que impregna os apitos.

Aqui não há céu,
não há horizonte.

Há uma mesa grande para todos os braços
e uma cadeira que gira quando eu me quero escapar.
Mais um dia se acaba e o destino era isto.

É raro ter-se tempo para estar triste,
há sempre uma ordem, um telefone, uma campainha,
e, claro, é proibido chorar sobre os livros,
porque não fica bem a tinta escorrer.


(Trad. A.M.)

.

20.9.17

César Cantoni (O tempo irreparável)





EL TIEMPO IRREPARABLE       


      

Quién iba, entonces, a pensarlo.
Lo cierto es que mi padre está muerto
como si nunca hubiese estado vivo.
Un día se le helaron las manos y los pies,
y la casa se llenó de parientes,
y mi madre lloró, de rodillas, junto al lecho.
Todavía lo recuerdo.


Mi padre está muerto o ya no está,
y no es suficiente ahora saber que fue feliz.
En este callado amanecer de otoño,
mientras el agua burbujea en la pava,
y la radio reporta las últimas catástrofes,
y yo cumplo con el rito habitual de afeitarme,
sólo una cosa es real: su ausencia, que no cesa.


César Cantoni




Quem é que ia pensá-lo, nesse tempo.
O certo é que meu pai está morto,
assim como se nunca tivesse estado vivo.
Um dia gelaram-lhe as mãos e os pés,
e a casa encheu-se de parentes,
e minha mãe chorou, ajoelhada, junto ao leito.
Ainda me lembra.

Meu pai está morto, ou já cá não está mais,
e não basta agora saber que foi feliz.
Neste calado amanhecer de Outono,
enquanto a água borbulha na chaleira,
e a rádio dá as últimas catástrofes,
 eu cumpro o rito usual de barbear,
uma só coisa é real: a sua ausência, que não cessa.


(Trad. A.M.)




.

19.9.17

A.M.Pires Cabral (Erosão)





EROSÃO



Montes arredondados, de tão velhos,
que já destes pão e hoje dais cardos,

dizei qual erosão mais vos magoa:
se a que vos vem do alto
no uivo dos ventos e nas cordas de chuva

- se a do desuso agrário.



A.M.PIRES CABRAL
Gaveta do Fundo
(2013)

.